Quem conta a sua história?

Uma das decisões mais importantes que temos que tomar enquanto escritores ao narrar uma história é quem vai contá-la. Na ficção, bem sabemos, nunca somos nós, os escritores, que narramos, mas nosso eu-lírico, o personagem ou voz que chamamos de narrador.


Isso é importante, pois uma vez que decidimos o narrador, sabemos até que ponto temos acesso aquela história, ou sejam temos que contar o que nosso narrador sabe e apenas isso. Da mesma forma, uma determinada história pode pedir um tipo específico de narrador. Seria contraproducente, por exemplo, narrar uma história policial com um narrador que já sabe quem matou, muito mais interessante ter o ponto de vista de um personagem nesse caso.

A primeira grande decisão é: narrar em primeira ou em terceira pessoa?

Cada um tem suas vantagens e desvantagens. Com a primeira pessoa, um narrador personagem, podemos aproximar o leitor da história, ele vai descobrindo tudo junto com o personagem; no entanto, devemos tomar cuidado para que essa narrativa não se torne cansativa. Na terceira pessoa, por sua vez, é preciso pensar no foco narrativo, o narrador vai ser onisciente, aquele que sabe tudo sobre tudo? Ou vai focar em uma personagem (ou em um grupo de personagens)? Mesmo uma história policial, como citei acima, pode ser contada em terceira pessoa mantendo seu mistério se o foco narrativo estiver bem definido.

A grande questão é que a escolha do narrador determina como podemos contar a história, nosso uso da linguagem, como e quando vamos fazer revelações ao leitor.

O narrador também reflete a nossa época e uma forma de pensar. Por exemplo, no curso da Quadro Amarelo o professor Jéferson Assumção fala da popularidade dos textos narrados em primeira pessoa, com o crescimento de narrativas no estilo autoficção, e do desuso do narrador onisciente, que representa quase um deus dentro da história, que tudo vê e tudo sabe. Esse fenômeno se relaciona com a forma como vemos a vida hoje, mais centrada no eu (talvez até demais) e cada vez mais descreditada de deuses onipotentes.


Para você, escritor, mais do que as tendências macro, o que importa é quem é o melhor narrador para a história que você quer contar?


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