Mostrar versus contar

É comum lermos textos que aconselham que nós como escritores devemos “mostrar, não contar”. Mostrar o que nossos personagens sentem, sua personalidade, o que eles pensam ao invés de contar escrevendo “o personagem se sentia assim”. Se o personagem está nervoso, por exemplo, devemos mostrar suas mãos tremendo, o suor além da conta, a voz falhando. De fato, isso traz mais veracidade ao texto do que simplesmente repetir “fulano se sentia nervoso”.


No entanto, quando nos entregamos as ondas do momento, primeira pessoa e a autoficção, é comum que a narrativa tome o caminho contrário, entrando cada vez mais na mente dos personagens nos distraimos com suas divagações e impressões sobre o que se passa. A ação dá lugar à psicologia imaginária dos nossos personagens, usando o termo cunhado por Ortega e Gasset.


Não há regra geral na literatura, há apenas a melhor forma de contar a sua história. E podemos ver vantagens e desvantagens nas diferentes técnicas. Como falado no texto passado, uma das vantagens da narrativa em primeira pessoa, com total acesso ao interior do personagem é a proximidade do leitor com esse, por outra lado, essa mesma intimidade pode acabar tornando o texto cansativo. Devemos tomar cuidado para nos perder nas divagações do protagonista deixando o texto lento demais, moroso e até desinteressante.


Quando mostramos, por outro lado, aceleramos a narrativa, damos a impressão de movimento e convidamos o leitor a fazer parte da história, uma vez que cabe a ele pensar e entender o que está acontecendo. É o que Tchecov vai chamar de ressonância na literatura, quando o escritor apresenta os fatos para que o leitor chegue aos seus significados. Não precisamos, no nosso texto, conceituar as ações dos personagens, podemos deixar que o leitor faça isso, abrindo, inclusive um leque de possibilidades de interpretação que vai de acordo com as vivências de cada um.


A literatura, diferente da ciência, não precisa estabelecer consensos.


Texto baseado na aula "A velocidade do romance" do professor Jéferson Assumção. Quer ser aluno da Quadro Amarelo para aprender muito mais sobre os tipos de narrador? Clique aqui para saber tudo sobre o curso.

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