Chegou a hora de ler Felisberto Hernández

Pouco antes de morrer, em 1964, o genial escritor uruguaio disse que só seria entendido dali 50 anos. Pois bem, o que você está esperando?


Por Jéferson Assumção



Pouco tempo antes de morrer, entristecido pelo pouco reconhecimento ao seu trabalho, o escritor uruguaio Felisberto Hernández (1902-1964) disse à sua filha Ana Maria Hernández Nieto, que sua literatura só seria compreendida dali a 50 anos. Pois bem, já está passando da hora. Em 2014, completou-se meio século da morte de um dos escritores mais surpreendentes e desconhecidos da literatura latino-americana.

Felisberto publicou pouco. Suas obras completas, organizadas em 1983 pela mexicana Siglo XXI, não chegam a 800 páginas. Muitos de seus contos, novelas e minúsculas peças de teatro têm um tom inacabado. Poderiam parecer esboçados, mais que realizados plenamente. Poderiam. Ao conviver com eles, o leitor atento, aos poucos, se vê entrando num mundo de poderosas invenções, como que infantilmente destacadas do cotidiano, num museu de objetos lúdicos de uma originalidade desconcertante. E com um poder inspirador reconhecido por alguns dos maiores escritores latino-americanos do século XX.

Dele, disse Gabriel García Márquez: “Se não tivesse lido as histórias de Felisberto Hernández em 1950, hoje não seria o escritor que sou”. Italo Calvino, que conheceu seu trabalho por intermédio de Cortázar, e traduziu Nadie Encendia Las Lámparas para o italiano, escreveu: “Felisberto Hernández é um escritor que não se parece a nenhum outro: a nenhum dos europeus e a nenhum dos latino-americanos; é um ‘atípico’ que escapa a toda classificação e fechamento mas se apresenta como inconfundível apenas com a abertura de uma de suas páginas”.

Para Julio Cortázar, Felisberto era uma espécie de parceiro espiritual de Macedonio Fernández e Lezama Lima, pertencente a uma estirpe qualificada por ele de “pré-socrática” e para a qual as operações mentais, “diferentemente da tradição do Ocidente”, apenas intervêm como articulação e fixação (com as palavras) de outro tipo de contato com a realidade. Basta ler Felisberto para perceber essa rarefação da consciência, quase como declaração de impotência dela diante do maravilhoso do comum. De um comum de onde sai outra coisa, colhida pelo escritor já com aquilo que seu olhar enxerga nele. Leitor de Bergson, Proust e Kafka, a memória é gatilho para a busca disso que pode parecer lateral e pouco importante e que no fundo talvez seja apenas uma mágica animação de objetos inanimados, numa brincadeira ou um jogo. Mas o que seria a literatura senão isso?

Assim, entre a eroticidade de pernas de mesas desnudas, cadeiras que parecem se mexer, um corredor de guarda-chuvas abertos, um piano branco que lhe parece um caixão de criança e casas inundadas por onde se anda apenas de barco, o fantástico vive como frutos nos galhos do cotidiano. E o texto traz a naturalidade de quem está o tempo todo, quase infantilmente, nesse mundo próprio, com uma admiração arcaica, original sobre seu funcionamento. Mas sem a afetação escandalosa do poeta. Antes, a precisão da execução e o silêncio típico das pessoas que amam a música. É o que parece constituir a especial dicção de onde nascem O CrocodiloO BalcãoNinguém Acendia as LâmpadasO Cavalo PerdidoAs Hortênsias ou Pelos Tempos de Clemente Colling (uma recorrência em delicados relatos são os professores de piano, especialmente Clemente Colling, pianista cego e personagem principal deste livro, o preferido do mestre uruguaio Juan Carlos Onetti).

Na edição uruguaia de Nadie Encendia las Lámparas, da Lectores de Banda Oriental, Felisberto é descrito da seguinte maneira: “Seus contos nos situam em um mundo onde a relação entre pessoas e objetos parece não terminar de se definir. Oscilam entre um realismo transbordado pela estranha e poderosa imaginação do criador e um matiz fantástico que parece sobrepor-se à própria condição das coisas, enquanto estas se debatem entre seu caráter inanimado e o sopro de vida que uma escrita obstinada e frequentemente deslumbrante lhes infunde”. No Brasil apenas duas coletâneas de seus textos estão publicados, mas abrangem boa parte da obra de Felisberto. O Cavalo Perdido e Outras Histórias (Cosac Naify, 2006) e As Hortênsias/Las Hortensias (Grua, 2012).


Vida quase ficção

Não fosse pela literatura, a vida de Felisberto já mereceria atenção. Nasceu em 1902 em Montevidéu. Começou a estudar piano em 1911 e se apresentou em diversos concertos pela Argentina e Uruguai. Paralelamente à música, com a qual teve intensa vida profissional, começou a publicar. Em 1925, saiu Fulano de Tal, livro de bolso bastante experimental, no formato e no conteúdo. O segundo se chamou Livro sem capa (1929), destinado a não ter começo nem final.

Em 1942, teve que vender seu piano, por problemas financeiros, dedicando-se a partir daí inteiramente à literatura. O sensacional El Caballo Perdido (1943), cujas memórias rondam Celina, a professora de piano, sai um ano depois. A sutileza e interioridade da obra despertaram a atenção do poeta franco-uruguaio Jules Supervielle (1884-1960), quem alguns anos depois o levou para viver em Paris por dois anos. Como de outras vezes, o individualista militante deixou tudo para trás, inclusive o segundo de seus seis casamentos, e partiu em busca de uma fama que não chegou.

O crítico uruguaio Gabriel Saad conta que, depois de ter se casado e separado novamente, viveu, na França, dois outros estrondosos amores. Um com uma inglesa que perdera os braços e as pernas. Utilizava próteses, que ele retirava nas horas de maior intimidade. Na volta da França para o Uruguai, Felisberto, reconhecidamente anticomunista, veio acompanhado de Maria Luiza, uma coronela da KGB (a agência de segurança russa) espiã conhecida por “A Espanhola”. Viveram casados cerca de dois anos, sem que Felisberto jamais desconfiasse de suas atividades clandestinas. Aliás, foi precisamente por isso, para que a Espanhola pudesse fazer seu trabalho sem levantar suspeitas, que os russos escolheram o escritor ainda na Europa. A espiã montou no Sul da América Latina o braço da KGB, do México à Patagônia. Anos depois, em 1964, pouco antes de morrer, o médico que o atendia disse a ele: “o senhor não sabe, mas eu sou comunista”, ao que Felisberto teria respondido que se tivesse sido informado não deixaria que o tocasse. Isso faz 56 anos, mais que os tais 50 anos que ele achava necessário passarem para ser finalmente compreendido. Pois então, chegou a hora de ler Felisberto Hernández.


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