Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil

A cultura brasileira é rica em sua oralidade, em sua espontaneidade, em sua diversidade, mas ainda é pobre em sua dimensão escrita. Desenvolver a dimensão escrita da cultura brasileira precisa contar com essa oralidade, espontaneidade e diversidade”. Essas frases abrem o artigo “A Dimensão Cultural da Leitura”, assinado pelo ministro Gilberto Gil, no Plano Nacional do Livro e Leitura, e ainda diz muito sobre como devemos pensar uma política de livro e leitura para o Brasil, uma política de leitura que se mostre ampliadora da diversidade cultural brasileira em vez de tentar diminuí-la. Não precisamos mais nos aferrar a uma ideia europeia e iluminista do livro. Antropofagicamente, é preciso pensar em uma ilustração de outro tipo, vital e diversa, articulada fortemente com as riquezas culturais do Brasil e não como um cimento por cima de sua diversidade.

Nunca foi tão necessário falar sobre o livro no Brasil. Num momento em que o fascismo entranhado em parte expressiva da sociedade brasileira vem à tona mais uma vez e que um Brasil arcaico, de armas em punho, ameaça nosso futuro, o livro ressurge como instrumento e como símbolo, talvez o mais poderoso símbolo de educação e cultura contra a barbárie. O livro livra, o livro protege, o livro abre possibilidades porque amplia repertórios e aumenta nossa capacidade de respostas para as incitações de uma realidade tão complexa, desigual e injusta, como a brasileira.

E por que o livro ainda é importante? Num mundo multimeios, como bem já disse Renato Janine Ribeiro, um meio fundamental e que não pode ser negligenciado, é o do livro. Seus longos encadeamentos lógicos e estéticos nos exigem uma atenção frequentemente sequestrada pelo mundo das redes sociais e da tecnologia em geral. O livro é ainda mais necessário no mundo atual, porque estabelece um tempo diferente do cotidiano, um recorte na realidade que nos permite e exige como leitores, decifradores de textos não só dos livros, mas do mundo.

E tudo é texto. Nada há fora dele, como escreveu Jacques Derrida, corroborando as ideias de seu compatriota Roland Barthes, para quem tudo é narrativa, inclusive a vida. Ocorre que no mundo, real e digital, impera a equiprobalidade e a entropia, tudo tem o mesmo valor. As informações estão no mundo, mas em ordens ainda bem mais provisórias que no texto escrito. Além disso, no mundo dos livros o texto só se torna texto quando lido, ou seja, quando as linhas horizontais de quem escreve se encontram com as verticais feitas pela leitura. Assim, o texto é, para Vilén Flusser, o tecido resultante da trama entre as linhas escritas e lidas. Não só no livro, é claro, mas não podemos negar que nos livros o texto se organiza de uma maneira encadeada e ainda mais exigente, de atenção, profundidade, tempo dedicado e absorvido.

O fato é que, por suas exigências, o livro é um instrumento fundamental para a leitura da complexidade do mundo complexo. O exigente mecanismo da leitura não apenas envolve, como desenvolve no leitor a capacidade de imaginar, o que significa criar nossas próprias imagens. O texto não nos traz tudo pronto. A sua precariedade tecnológica exige ainda mais ativação da imaginação para que os sons, as ideias e as imagens vivam a partir da página inerte e silenciosa à nossa frente. Trata-se de um esforço individualmente relevante e socialmente impactante. Quanto mais leitura há, mais imaginação e capacidade de decifração há em um povo.

Como tudo é linguagem e nada existe, para os seres humanos, fora dela, quem domina as suas complexas possibilidades domina também o mundo. Quem cria as narrativas e explora suas possibilidades, cria realidades vividas pelos outros, e isso porque nada existe que não tenha sido contado, inventado, criado, seja por milênios de tradições orais e escritas, seja pelas mais modernas linguagens, códigos, algoritmos. A escrita e a leitura criam. O desenvolvimento de seu uso, ampliador de repertórios, transformador, estético e político, é condição para transformações culturais.

O livro não é apenas um suporte, mas um símbolo. Muito em suas dimensões educacionais, mas fundamentalmente em sua dimensão cultural. Custamos a articular de maneira democrática e participativa uma ideia ampla e poderosa dessa dimensão cultural da leitura, consubstanciada no Plano Nacional do Livro, Leitura e Literatura, gestados nos governos Lula e Dilma.


Leitura e cultura digital

Com a dissolução de fronteiras entre as artes e os campos da comunicação e da cultura, via aumento da convergência tecnológica, há cada vez mais a percepção da narrativa e da literatura em geral presentes no cinema, nas artes sequenciais (quadrinhos e animações), nos jogos de vídeo e outros (como as aplicações de storytelling e técnicas da ficção ao marketing político e comercial). Essas são também áreas e artes sequenciais, que dependem em muito das técnicas e da capacidade de se contar uma história, montar sequências e cenas, de criar e aprofundar personagens, inventar e descrever cenários, dar dinâmica à narração, gerando interesse no público das artes, da cultura, da comunicação. Neste sentido, é preciso destacar a importância da escrita em uma política de livro e de leitura. Tanto é assim que a Lei 13.696 institui não apenas uma política da leitura, mas uma Política Nacional de Leitura e Escrita.

Neste sentido, é importante do ponto de vista cultural pensar o desenvolvimento da Escrita Criativa, estratégia amplamente utilizada em diversas universidades dos Estados Unidos, França, Portugal, México, Argentina e muitos outros, para desenvolver não apenas a escrita ficcional, mas o gosto e o interesse pela leitura. Isso porque ao se mostrar como se faz um conto, um romance, uma peça teatral apresenta-se a literatura desde um ponto de vista muito concreto e não apenas teórico e histórico.

À medida que as tecnologias evoluem e mesclam as plataformas e suportes das diferentes artes, precisamos pensar em como preparar gerações de brasileiros capazes de dominar narrativas em diferentes contextos de aplicação. Trata-se de algo de enorme importância, uma vez que as indústrias culturais vêm se desenvolvendo de maneira menos concentrada e concentradora e multiplicando suas oportunidades para quem domina a escrita não apenas funcionalmente, mas cultural e criativamente.

A qualidade do cinema, dos quadrinhos, da música e do videogame depende da qualidade de sua escrita. O escritor é fundamental para um bom quadrinho, um bom jogo, uma boa música, um bom teatro etc, mas também para boas campanhas de comunicação, para a educação etc. O mergulho ou a densidade dessas áreas dependem de qualidades literárias. Hoje em dia não apenas é possível atravessar as fronteiras materiais que haviam sido erguidas na era industrial, como também se pode aproveitar o arejamento vindo das periferias e da profundidade da diversidade cultural, também – e muito especialmente – para a narrativa na literatura e outras artes. Principalmente no Brasil, país tão rico do ponto de vista de sua diversidade natural e cultural, cujas histórias ainda estão em sua enorme maioria por serem escritas.

Se a base da indústria cultural tradicional foi até o século XIX e boa parte do XX a economia do livro, hoje a base é uma economia da escrita criativa aplicada também a outros suportes, a começar pelo audiovisual. Nessa área, o escritor segue central mesmo que a ideia de escritor como aquele que “produz livros” se fragmente para além das fronteiras das páginas impressas e hoje se aplique a essas demais áreas. A literatura não está apenas nos livros e precisa ser vista como parte fundamental de uma economia da cultura na era pós-industrial, com seus imensos desafios e oportunidades.


O que devemos fazer?

– Implementar plenamente a Lei 13.696, que institui a Política Nacional de Leitura e Escrita, importante instrumento para a promoção do livro, da leitura, da escrita, da literatura e das bibliotecas de acesso público no Brasil.

– Recompor a institucionalidade do livro e da leitura no Brasil, com a recriação da Secretaria do Livro, Leitura e Literatura, no futuro MinC.

– Reimplementar o programa de Modernização de Bibliotecas, ajudando a criar uma geração de bibliotecas vivas, pequenos centros culturais modernos e atrativos para jovens, crianças e adultos, em diálogo com as diversas identidades culturais do País.

– Retomar e ampliar a rede de Pontos de Leitura, as bibliotecas comunitárias e projetos exitosos de bibliotecas rurais a partir do Arca das Letras.

– Fomentar a formação de mediadores, com o aumento dos recursos e da atuação, em todo o Brasil, do Programa Nacional de Incentivo à Leitura – Proler, da Fundação Biblioteca Nacional.

– Voltar a posicionar a literatura brasileira no exterior, com a retomada e o aumento das bolsas de tradução, pela Fundação Biblioteca Nacional (FBN). Retomar também o nível de participação nas feiras e eventos internacionais, posicionando no mundo a enorme, diversa e qualificada produção brasileira.

– Construir e modernizar nacionalmente as bibliotecas públicas municipais, como barreiras contra a barbárie e suas armas.

– Zerar o número de municípios brasileiros sem bibliotecas.

– Voltar a implementar, em todo o Brasil todo o exitoso projeto Agentes de Leitura, que promove a mediação cultural em populações e territórios mais necessitados.

– Gerar um ambiente de valorização social e cultural do livro, com a universalização do acesso à leitura e à escrita, e suas dimensões educacionais e culturais.

– Reconhecer a leitura e a escrita como direitos de cidadania e via para uma vida mais digna de acesso e potencialização de expressões simbólicas próprias.

– Fomentar as feiras de livro, festas literárias, saraus, slams, jornadas literárias e bienais em todo o país, fortalecendo um circuito ativo e diverso de eventos literários.

– Implementar, via Biblioteca Nacional, um programa nacional de circulação de escritores e escritoras brasileiras em todo o território.

– Desenvolver estratégias para o aumento da relação entre escrita, leitura e cultura digital. É preciso aproximar o mundo do livro do mundo digital, para que este momento único de fim de uma era analógica e início de uma era digital se nutra dos longos encadeamentos lógicos e estéticos dos livros.

– Capacitar para a formação de professores e estudantes leitores e escritores.

– Articular cultura e educação, desenvolvendo ações de leitura e de literatura, como a hora da leitura nas escolas, bem como fomentar a escrita criativa entre os estudantes e professores, como importante ponto de entrada para a leitura e o mundo da literatura. Isso é importante para gerar uma relação de intimidade criadora com a escrita. Constituir um ambiente criativo e expressivo ampliador da bibliodiversidade brasileira.

– Promover a escrita criativa como parte da economia criativa do País, uma vez que ela é um potente elemento de desenvolvimento econômico integrado ao design. O designer atua no espaço, desenhando desde uma caneta até um edifício. O escritor é um designer no tempo, gerando narrativas, discurso e o desenvolvimento das artes sequenciais, seja a literatura, propriamente, como o teatro, cinema, quadrinhos, games etc. Ver a escrita criativa como parte da economia criativa é importantíssimo para outro tipo de valorização da escrita, a da geração de bens econômicos, emprego e renda.

– Precisamos desenvolver no Brasil uma escrita criativa não apenas do ponto de vista norte-americano ou europeu, mas a partir das potencialidades brasileiras, portuguesas e africanas, em diversidades e convergências com outras áreas, num sentido articulado e colaborativo.

* Escritor, foi coordenador e diretor de Livro e leitura do Ministério da Cultura, secretário de Cultura de Canoas-RS e secretário adjunto de Cultura do Rio Grande do Sul.

Todo escritor já passou pelo infame bloqueio de escritor, não é mesmo? Aquele momento que você senta em frente ao computador e fica olhando para a página em branco e não vem nada. Pois bem, hoje vamos compartilhar algumas ideias do livro Gramática da Fantasia, do escritor Gianni Rodari para você nunca mais passar por isso.

Binômio fantástica - Ligue elementos que estejam em mundos bem diferentes e criar a sua história a partir dos desdobramentos dessa interação.

Prefixo arbitrário - Dê a uma palavra um prefixo que a contradiga e pense uma história a partir disso.

Erro criativo - O erro leva a um pensamento divergente; causa estranhamento. Não desperdice seus erros. Use-os para criar.

Misturar manchetes de jornal - Misture diferentes manchetes de jornal, mesmo que pareça sem sentido e veja que histórias podem se formar a partir disso.

Bloco de perguntas - quem era? Onde estava? O que fazia? O que disse? O que disseram as pessoas? Como acabou?

Trama fantástica - Errar uma história; colocar mais algum elemento em uma história, transpor a história para outro lugar.

Salada de fábulas - Misturar os personagens e os elementos de diferentes histórias criando um novo universo narrativo.


Já usou alguma dessas técnicas? Qual sua preferida? Não esqueça de comentar!

Você já se pegou se perguntando se você tem mesmo talento para a escrita? Se é isso que você deve fazer? Se vale a pena investir tanto tempo na sua formação como escritor, seja para construir uma carreira ou como hobby?


É comum ter dúvidas sobre a sua escrita, principalmente se você não faz nenhuma oficina ou participa de um grupo de escritores que possa te dar opiniões verdadeiras e qualificadas sobre o seu texto. Mas será que escrever bem é uma questão de talento?


Lembre-se: uma vez que decidimos ser ficcionistas, assumimos o compromisso de fazer o nosso melhor. E isso não tem nada a ver com talento. Assis Brasil, Escrever ficção.

Muita gente usa talento como desculpa. Uns para não fazerem, pois não nasceram “com talento”; outros para não se aperfeiçoarem, pois acreditam ter talento. Como o professor Assis Brasil muito bem nos diz no seu livro Escrever ficção, quando você decide ser escritor, assume o compromisso de fazer o seu melhor. Criar bons personagens, tramas intrigantes e entregar um texto de qualidade para o seu leitor. Isso requer que você conheça as ferramentas e técnicas de escrita criativa e tem pouco a ver com talento, um conceito abstrato, e muito a ver com estudo e prática.


A PROPÓSITO: E O TALENTO? No campo literário, nunca vi palavra tão vazia. É possível que você já tenha gastado muito tempo pensando nela. Julgo, inclusive, que ela foi criada para atormentar as pessoas, pois gera inumeráveis pseudoproblemas: “Não tenho talento”, ou “Cláudia tem mais talento do que eu”, ou “Cláudia diz que tenho talento, mas não consegue enxergar onde ele possa estar”. É tão cínico quanto falso dizer essas coisas. Assis Brasil, Escrever ficção.

Malcolm Gladwell em seu livro Fora de série nos diz que para ser bom em qualquer coisa, você precisa de 10 mil horas de prática. Há controvérsias, claro. Pode ser que você atinja uma boa escrita em menos tempo, se você, por exemplo, já for um leitor ávido. Ou pode ser que você passe 20 mil horas praticando uma atividade sem saber as técnicas e, por isso, nunca melhore de fato. Bons professores e boas referências, num estudo de qualidade, vai te fazer chegar mais rápido onde você quer, seja na escrita ou em qualquer outra área. O que não podemos negar é que prática e aprendizado vão te levar muito mais longe do que “talento”.


Então, se você quer se dedicar a escrita, temos duas sugestões, você pode baixar o ebook gratuito de exercícios de escrita criativa da Quadro Amarelo, que vão te ajudar a praticar os quatro movimentos da história: narração, descrição, diálogo e digressão. E se você quiser ir ainda mais longe, pode se inscrever no curso da Quadro Amarelo para aprender com professores escritores com diversos livros publicados e muitos alunos satisfeitos. São mais de 40 aulas que vão desde os elementos básicos da escrita criativa até técnicas avançadas. E você ainda vai ter acesso ao grupo exclusivo de alunos, onde vai poder mandar os seus textos para serem lidos.

Vem ser aluno Quadro Amarelo!