• Mariane Lima

É comum lermos textos que aconselham que nós como escritores devemos “mostrar, não contar”. Mostrar o que nossos personagens sentem, sua personalidade, o que eles pensam ao invés de contar escrevendo “o personagem se sentia assim”. Se o personagem está nervoso, por exemplo, devemos mostrar suas mãos tremendo, o suor além da conta, a voz falhando. De fato, isso traz mais veracidade ao texto do que simplesmente repetir “fulano se sentia nervoso”.


No entanto, quando nos entregamos as ondas do momento, primeira pessoa e a autoficção, é comum que a narrativa tome o caminho contrário, entrando cada vez mais na mente dos personagens nos distraimos com suas divagações e impressões sobre o que se passa. A ação dá lugar à psicologia imaginária dos nossos personagens, usando o termo cunhado por Ortega e Gasset.


Não há regra geral na literatura, há apenas a melhor forma de contar a sua história. E podemos ver vantagens e desvantagens nas diferentes técnicas. Como falado no texto passado, uma das vantagens da narrativa em primeira pessoa, com total acesso ao interior do personagem é a proximidade do leitor com esse, por outra lado, essa mesma intimidade pode acabar tornando o texto cansativo. Devemos tomar cuidado para nos perder nas divagações do protagonista deixando o texto lento demais, moroso e até desinteressante.


Quando mostramos, por outro lado, aceleramos a narrativa, damos a impressão de movimento e convidamos o leitor a fazer parte da história, uma vez que cabe a ele pensar e entender o que está acontecendo. É o que Tchecov vai chamar de ressonância na literatura, quando o escritor apresenta os fatos para que o leitor chegue aos seus significados. Não precisamos, no nosso texto, conceituar as ações dos personagens, podemos deixar que o leitor faça isso, abrindo, inclusive um leque de possibilidades de interpretação que vai de acordo com as vivências de cada um.


A literatura, diferente da ciência, não precisa estabelecer consensos.


Texto baseado na aula "A velocidade do romance" do professor Jéferson Assumção. Quer ser aluno da Quadro Amarelo para aprender muito mais sobre os tipos de narrador? Clique aqui para saber tudo sobre o curso.

  • Mariane Lima

Uma das decisões mais importantes que temos que tomar enquanto escritores ao narrar uma história é quem vai contá-la. Na ficção, bem sabemos, nunca somos nós, os escritores, que narramos, mas nosso eu-lírico, o personagem ou voz que chamamos de narrador.


Isso é importante, pois uma vez que decidimos o narrador, sabemos até que ponto temos acesso aquela história, ou sejam temos que contar o que nosso narrador sabe e apenas isso. Da mesma forma, uma determinada história pode pedir um tipo específico de narrador. Seria contraproducente, por exemplo, narrar uma história policial com um narrador que já sabe quem matou, muito mais interessante ter o ponto de vista de um personagem nesse caso.

A primeira grande decisão é: narrar em primeira ou em terceira pessoa?

Cada um tem suas vantagens e desvantagens. Com a primeira pessoa, um narrador personagem, podemos aproximar o leitor da história, ele vai descobrindo tudo junto com o personagem; no entanto, devemos tomar cuidado para que essa narrativa não se torne cansativa. Na terceira pessoa, por sua vez, é preciso pensar no foco narrativo, o narrador vai ser onisciente, aquele que sabe tudo sobre tudo? Ou vai focar em uma personagem (ou em um grupo de personagens)? Mesmo uma história policial, como citei acima, pode ser contada em terceira pessoa mantendo seu mistério se o foco narrativo estiver bem definido.

A grande questão é que a escolha do narrador determina como podemos contar a história, nosso uso da linguagem, como e quando vamos fazer revelações ao leitor.

O narrador também reflete a nossa época e uma forma de pensar. Por exemplo, no curso da Quadro Amarelo o professor Jéferson Assumção fala da popularidade dos textos narrados em primeira pessoa, com o crescimento de narrativas no estilo autoficção, e do desuso do narrador onisciente, que representa quase um deus dentro da história, que tudo vê e tudo sabe. Esse fenômeno se relaciona com a forma como vemos a vida hoje, mais centrada no eu (talvez até demais) e cada vez mais descreditada de deuses onipotentes.


Para você, escritor, mais do que as tendências macro, o que importa é quem é o melhor narrador para a história que você quer contar?


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  • Mariane Lima

Existe esse mito do escritor que senta no seu escritório silencioso com seu papel e sua caneta (ou na frente do seu laptop) e simplesmente começa a escrever. Palavras saindo de seus dedos sem controle, como se ele fosse, de fato, visitado por uma entidade mágica que fizesse as palavras jorrarem para o papel (ou a tela).


O escritor vivendo o seu propósito.

Tudo muito bonito.


Cenas como essa podem até funcionar em filmes sobre Shakespeare, mas, se você já sentou para escrever uma história sem saber ao certo onde ela ia dar, provavelmente teve uma experiência muito diferente desta.


Tela em branco, o traço do cursor que parece estar fazendo piada com a sua cara.

Nenhuma palavra parece boa o suficiente. Frustração.


A boa notícia é que isso é absolutamente comum. Se você senta na frente do seu computador com apenas uma ideia, é provável que passe mais tempo olhando para as páginas vazias do seu editor de texto do que escrevendo. A outra boa notícia é que você pode mudar isso. Com planejamento.


É muito mais fácil e muito mais produtivo sentar para escrever quando você sabe aquilo tem que escrever. O caminho dos personagens já está traçado e basta você se entregar à linguagem.


Você sabe o quais cenas precisa escrever e o que pode ser sumariado.

Você já conhece bem os seus personagens e sabe como eles vão se comportar em determinada situação.

Você tem o controle da narrativa e pode se entregar ao ato da escrita, sem repensar a cada parágrafo.


Muitos escritores alegam que planejar tiraria a graça da escrita, eu vou discordar deles. Ter um objetivo claro permite nos colocarmos na cabeça do leitor, pensar no que e quando mostrar para provocar esta ou aquela sensação. Para mim, a graça da escrita, mais do que descobrir os meus personagens, está em manipular a atenção do leitor, esse ser imaginário.


Claro que não há certo ou errado nos processos de cada escritor, mas se você já se viu paralisado no meio do seu livro, dê uma chance ao planejamento, você pode se surpreender.


No curso da Quadro Amarelo, o professor Jéferson Assumção fala sobre a forma que planejou seus últimos 3 livros, desde a idéia, até sua última revisão. Quer ser aluno da Quadro Amarelo? Clique aqui para saber tudo sobre o curso.

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